segunda-feira, 25 de maio de 2009

Sobre Gestos e Intenções

Começou mais um capítulo da comédia, Senhoras e Senhores. O assunto agora é terceiro mandato. Já há deputados propondo esticar o mandato atual do presidente Lula até 2012, quando teríamos eleições gerais no Brasil. Essa é mais uma tentativa de "tirar o foco" das verdadeiras intenções de nossos nobres representantes.
Estão articulando a "reforma política" mais chinfrim que poderiam fazer. Voto em lista fechada e financiamento público das campanhas. Na prática estão sugerindo o seguinte: O eleitor, que é quem paga os impostos, deve dar o seu dinheiro para que os partidos façam campanhas para candidatos nos quais o eleitor, que é quem paga os impostos, não pode votar.
Olha que beleza Senhoras e Senhores! Enquanto estas negociações ocorrem nos bastidores a mídia dá atenção especial ao assunto do terceiro mandato. É uma proposta tão absurda que desvia o foco e faz parecer que a "reforma política" é um bom negócio. Coisas sérias como o voto distrital, fim da remuneração para vereadores e prefeitos de pequenas comunidades, fim do foro privilegiado, fim dos benefícios absurdos para deputados e senadores como auxilio moradia, uso de gráficas, engraxates, barbeiros, motoristas, passagens aéreas, nepotismo descarado e todos os demais absurdos que imperam na "casa do povo".
A renovação é algo que pode mudar a história do país. Mas precisa ser feita com urgência e com cuidado. Muitos dos que se candidatam ainda fazem parte dessa escola de política que tanto mal fez para o país.
Já há algum tempo os escândalos pipocam na grande imprensa nacional. Mas as manchetes já diminuem, nada foi feito para corrigir os problemas e os deputados e senadores envolvidos serão mais uma vez absolvidos pelo inabalável corporativismo do legislativo. Enquanto isso governo e oposição se debatem para poder roer o osso do mais novo foco dos holofotes da imprensa. A CPI da Petrobrás promete, ao longo dos próximos 360 dias (alguém duvida que haverá prorrogação do prazo?), ser o assunto da moda.
A oposição já pensa no tamanho do problema que arrumou para si. As suspeitas podem, como no caso mensalão, espirrar o esgoto para todos os lados, incluindo os próprios tucanos e democratas, responsáveis pela gestão da estatal antes da era Lula. Os esqueletos nos armários já começam a protestar pela explosão demográfica que está para acontecer. O Brasil precisa de reforma política Senhoras e Senhores. Mas antes precisa de um reformatório.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Lista fechada. Mais uma caixa preta.

O Amigo Leitor já deve estar careca de ouvir dizer que o eleitor brasileiro tem memória curta e não acompanha o político no qual vota. Nem tem o hábito de se informar adequadamente sobre a vida política de seu candidato, o que torna fácil a eleição de candidatos fabricados, de história política duvidosa ou de flertes, quando não romances, com o crime e a falta de ética.

Este comportamento se deve não só a parca formação política do eleitor. Também a enorme distância que separa os candidatos dos seus eleitores serve aos que se candidatam com o único objetivo de se locupletar. A imensa maioria dos eleitores conhece o candidato apenas pelo “santinho” , quando muito.

É este distanciamento que permite as casas legislativas de todas as instâncias os desmandos que tem sido denunciados pela imprensa de todo o país. Desde castelos até pagamento de passagens aéreas para familiares e amigos com dinheiro público.

O congresso nacional passou agora a pouco por uma avaliação da Fundação Getúlio Vargas. Das mais de 150 diretorias (com diretores, secretárias e toda a infra estrutura que se puder “pendurar” nelas seriam necessárias apenas 7. Em toda a história da iniciativa privada nunca se viu um ”downsize” dessas proporções. O motivo é simples: Qualquer empresa que se permita um descalabro desses está fadada à extinção.

Não se trata aqui de defender um estado que se paute exclusivamente pelo lucro. O estado tem obrigação de atuar nos setores onde a iniciativa privada não tem interesse. Mas daí a rasgar dinheiro há uma distância considerável.

Agora o congresso começa a levantar a bandeira do financiamento público de campanha e a lista fechada de candidatos. O primeiro é um instrumento importante para impedir o controle de grupos milionários sobre os políticos. Uma vez que não se possa doar dinheiro aos candidatos a capacidade de corromper diminui. Além do benefício adicional de nivelar os candidatos em relação ao seu poder de exposição na mídia, valorizando mais as propostas em detrimento da imagem.

Mas implantar a lista fechada sob o argumento de “facilitar” a vida do eleitor para que não precise escolher entre milhares de candidatos é uma forma de alienar ainda mais do eleitor a possibilidade de escolher. Os partidos políticos no Brasil são instituições onde os atuais quadros do legislativo se originam. Dada a qualidade destes é no mínimo duvidoso que estas organizações venham a escolher os mais preparados e éticos.
Os quadros já não oferecem muita escolha para o eleitor informado, que busca saber o que seu candidato anda fazendo e tem condições de avaliar minimamente o desempenho de senadores e deputados. Imaginem se a partir de 2010 formos obrigados a votar no escuro? Vamos lembrar, senhoras e senhores: A noite todos os gatunos são pardos.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O Último que sair desligue a luz.

Vivemos em uma sociedade que não liga, amigo leitor. Não ligamos para a miséria exposta nos jornais todos os dias. Não ligamos para o desespero das famílias desabrigadas pela chuva todo ano. Não ligamos para o péssimo desempenho das escolas públicas devido aos desmandos e falta absoluta de competência dos gestores da educação no país. Não ligamos para o aumento da violência entre nossos jovens, levados aos milhares. Não ligamos para a saúde pública com seus hospitais sem médicos ou equipamentos. Não ligamos para as universidades públicas que só atendem aqueles com cacife para pagar bons colégios e cursinhos. Não ligamos para o crescente desmatamento e exploração ilegal da Amazônia que a cada ano rasga nosso patrimônio natural seja em biodiversidade seja em madeira ilegal. Não ligamos para as polícias corruptas e despreparadas. Não ligamos para a impunidade de administradores colocados por nós pela enésima vez no comando da coisa pública. Não ligamos para as merendas extraviadas. Não ligamos para as obras superfaturadas que encheram os bolsos de grandes empreiteiros durante os últimos 50 anos. Não ligamos para um sistema judiciário lento, podre e desacreditado. Não ligamos para a poluição de nossos mananciais pela sujeira despejada nas ruas por nós mesmos e nos rios pelas empresas das quais compramos produtos. Não ligamos para interesses privados representados dentro do congresso nacional, a casa do povo. Não ligamos para o uso indevido do dinheiro público para compra de favores e castelos. Não ligamos para caixa dois de campanhas eleitorais. Não ligamos para o uso político de nossas instituições. Não ligamos para a absoluta falta de controle de entrada de armas no país por nossas fronteiras abandonadas. Não ligamos para uma política de incentivo a cultura que desvia dinheiro público para espetáculos que custam R$ 300,00 por lugar. Não ligamos para nosso patrimônio histórico abandonado. Não ligamos para o domínio do crime nas comunidades abandonadas pelo estado. Não ligamos para a prostituição infantil nem para a escravidão nos confins do país. As notícias saltam aos olhos diariamente nos jornais que lemos ou assistimos e tudo que conseguimos fazer é dizer "Que Absurdo"!

E quando um desses escolhidos por nós diz que se lixa para o que pensamos porque a imprensa os acusa e na outra eleição eles se reelegem nós ficamos indignados. Indignados com a falta de caráter e civismo desses incivilizados. Quais incivilizados, cara pálida? Nós sabemos de quem é a responsabilidade por isso tudo Senhoras e Senhores. E não é do Edmar.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

A imperícia da impolícia.

Mais uma vez amigo leitor, mais uma vez a polícia e justiça paulistas cometem o erro de pré condenar um cidadão com consequencias brutais para os envolvidos. A Dona de casa Daniele Toledo do Prado, acusada de matar a filha com uma mamadeira de cocaína foi inocentada e libertada. Espancada por outras presas, segundo a matéria do site do Estado de S. Paulo ela perdeu parte da audição e da visão do lado direito. http://www.estadao.com.br/cidades/not_cid234947,0.htm

Ela ficou presa por 36 dias. Não é pouco tempo. Como diria o personagem John Constantine, dois minutos no inferno são uma eternidade. Feitos os exames na mamadeira e nas vísceras da criança constatou-se que não havia cocaína. Levaram 36 dias para isso.

Amigo leitor, este que vos escreve foi, pessoalmente, vítima de algo parecido. Passei 4 horas em uma delegacia, sendo humilhadopor suspeita do homicídio de um policial em 2003 À época fui orientado por um policial amigoque deixasse o caso de lado. Era muito perigoso denunciar. Só escapei por pura sorte, graças a esse amigo. Não é fácil imaginar o que passou esta mãe.

Estes fatos nos obrigam a pensar no papel da polícia na sociedade atual. Esta aberração de autoritarismo, herança dos tempos da ditadura, aumenta a cada dia ao invés de regredir, como seria de se supor em uma sociedade que amadureceu imensamente nos últimos 20 anos, sendo capaz de colocar em discussão temas tão complexos como aborto e maioridade penal.

A polícia continua intocada. Mandando e desmandando. A última demonstraçao desse completo desrespeito pelo estado de direito e pelas autoridades foi o grampo feito pela Abin. A polícia no Brasil acha qoe pode passar até por cima do Presidente da República.

É preciso agir logo. Antes que o estrago seja tão grande que a instituição perca completamente a credibilidade dentro da sociedade brasileira. Aí teremos dois problemas muito maiores: Construir do zero uma nova polícia e lidar com a violência daqueles que forem excluídos das corporações. As milícias no RJ são um exemplo claro do que irá acontecer. Estamos sentados em um barril de pólvora e olhando o pavio queimar.

Ser refém de uma instituição pública é pior do que ser sequestrado. Estes homens e mulheres são servidores públicos. O povo é o patrão desses servidores. Eu pergunto ao Amigo Leitor: É assim que você se sente quando é abordado pela polícia?

A criação de uma polícia estadual unificada. Sem caráter militar, com corregedorias fortes e estruturadas. A elevação dos requisitos de contratação. O treinamento adequado dos quadros e o contínuo monitoramento de suas ações são fundamentais para que tenhamos um aparelho forte e eficiente, que não cometa abusos e seja menos permeável à corrupção. É uma urgente questão de segurança nacional.

Enquanto estas mudanças, profundas e estruturais, não acontecem, é preciso que a justiça forme um colchão de ar para evitar estes abusos. Prisão é para condenado. Assim é estruturado o código penal brasileiro. Se o indivíduo não oferece perigo para a sociedade ou se não há provas concretas que indiquem a autoria de um crime desse tipo não há que se prender o cidadão. E, ao fazê-lo, tem-se que eliminar as dúvidas antes de submeter uma inocente ao sofrimento e risco do sistema carcerário brasileiro.

Aconteceu com uma mãe de 23 anos. Aconteceu comigo. Acontece todos os dias. Estamos esperando o que Senhoras e Senhores? Que aconteça com todos nós?

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

A Câmara dos Incomuns

Vergonhosa, Amigo Leitor. Éssa é a conclusão que podemos chegar à respeito da atual legislatura da câmara municipal de São Paulo segundo a pesquisa divulgada pela ONG Voto Consciente. Vamos aos números:

Foram 2.021 projetos apresentados e 781 aprovações. Destes, mais da metade estão relacionados com a troca de nome de logradouros públicos. É o fim da picada. Elegemos os ilustres vereadores para que nos representem na tomada das decisões importantíssimas para a maior cidade do país e... Eles escolhem nomes de ruas! Ora! Tenha a Santa Paciência!

O Prefeito vetou por inconstitucionalidade 127 projetos. Estes não deveriam sequer ter ido à plenário. O custo desta patuscada? 93 Milhões de reais. Isso porque os vereadores pagam aos seus assessores uma infinidade de dinheiro para que não precisem fazer tudo sozinhos. Existe dinheiro mais mal aplicado?

Faltas nas sessões e comissões. Ausência de projetos relevantes, acusações de incoerência com as promessas de campanha, inatividade... Tem de tudo. Poucos são os que realmente trabalhara como representantes dos interesses da população. O Resto só cumpriu tabela.

O papel de organizações como a Voto Consciente (http://www.votoconsciente.org.br/) é dos mais relevantes neste cenário. Tente obter informações no site da câmara municipal. É quase impossível acompanhar o trabalho dos candidatos. É obrigatória a leitura da pesquisa para quem quer escolher seu candidato com consciência.

Quem tem que frequentar um hospital público ou utilizar transporte público em São Paulo percebe o resultado dessa situação. Descaso e falta de competência administrativa são a principal causa dos problemas da cidade. Os vereadores, responsáveis por apresentar propostas de solução para estes problemas e fiscalizar sua execução fazem exatamente o contrário. Se omitem sem o menor pudor, em conchavos com interesses escusos, certamente distantes das necessidades da maioria da população.

Não deixem de acompanhar a pesquisa e seus desdobramentos. Divulgue para seus amigos e parentes. Faça a sua parte. Cada voto que gente desse tipo deixa de receber é um passo em direção a uma cidade mais justa, limpa e boa de se morar.

Precisamos garantir que gente desse tipo não ganhe nem eleição para síndico de prédio. Eles não fazem a parte deles Senhoras e Senhores, porque nós não fizemos a nossa. Nós os colocamos lá.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Brasil Cinza

Fernandinho Beira Mar foi julgado hoje. Sem algemas, a pedido de seu advogado, insistiu que não é responsável pelos crimes porque estava cuidando de seus negócios. Alega ser empresário.

E deve ser mesmo! O cenário político e econômico brasileiro está repleto de empresários de algemas. Zuleido Soares, Naji Nahas, Daniel Dantas e Paulo Maluf e tantos outros que, sob a fachada de empresários, políticos, investidores e outas tantas profissões se tornam criminosos, lesando o erário público e entidades privadas.

Mas o caso do Fernandinho é diferente. Ele é um criminoso conhecido, traficante de drogas e mandante de diversos assassinatos. Na primeira oportunidade que teve criou uma construtora e um depósito de materiais para construção.

Essa é para pensar, Caro Leitor. Pessoas como Beira Mar, na maioria dos casos, nasceram em um ambiente hostil e de baixíssima mobilidade social. As crianças que nascem nas favelas e guetos de grandes metrópoles dificilmente têm condições de sair de lá. São coagidas pelo tráfico, já que a ausência do poder público é absoluta, e entram para as fileiras do crime ainda bem jovens. Não terminam os estudos e raramente entram em uma faculdade. Alguns agora conseguem seguir a carreira de direito, financiadas pelo tráfico que irá precisar de seus serviços no futuro, seja para defendê-los na justiça, seja para servir de mensageiros e mulas entre os presídios.

Mas o que dizer sobre homens como Zuleido, Nahas e Dantas? A maioria deles fez faculdade. Alguns até nasceram em berço de ouro. Tiveram acesso às mehores escolas. Cursos, tutores, carros, roupas e viagens. Tiveram alimentação mais que digna e famílias razoavelmente estruturadas. E o que se tornaram? Bandidos.

E não estou defendendo o Beira Mar não. Ele cometeu e pasmem! Continua cometendo de dentro da cadeia uma série de crimes bárbaros. Que apodreça na cadeia. Mas é hora de tratarmos os criminosos de forma idêntica. As escutas telefônicas utilizadas para prender os peixes grandes já dão origem a polêmicas. Quem assistiu o programa "Opinião Nacional" ontem na TV cultura tem uma idéia do que eu estou dizendo. Grandes cabeças debruçadas sobre o tema para que não se cometam injustiças.

E quando um policial invade um barraco na favela com o pé na porta e arma na mão. Manda todos deitarem no chão e vasculha o recinto a procura de armas e drogas, tudo isso sem mandato. Não é violação de privacidade?

Cada vez mais o "diga-me com quem tu andas e te direi quem tu és" me parece um simples chavão para justificar a nossa cegueira e discriminação. Jesus andava com Judas Senhoras e Senhores e Judas andava com Jesus.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Alvos Móveis

"Insana" Caro Leitor. Assim foi classificada a ação policial no RJ que culminou na morte do menino João Roberto de 3 anos. Mais uma vítima inocente da falta de preparo e da sanha assassina das polícias brasileiras.

Não há muito o que dizer. O caso do RJ é emblemático. Um dos estados mais ricos da federação sofre os efeitos de uma guerra civil. É a barbárie dos traficantes contra o despreparo e a certeza de impunidade dos agentes policiais.

Há poucos dias até mesmo o exército, nossa última esperança, cometeu um crime absurdo ao entregar 3 rapazes para o tribunal do tráfico. Um indício claro de que até mesmo esta instituição, tida pelos brasileiros como uma das mais isentas e eficientes, já foi corrompida pelo poder paralelo da criminalidade.

A reboque destas tragédias o poder público anuncia a criação de uma "universidade de polícia" com o objetivo de formar um corpo mais capacitado e consciente de suas obrigações e limites. A pergunta é: Quem vai dar aula? Quem temos que possa ensinar estes novos policiais a respeitar os direitos dos cidadãos e conter seus impulsos para que não metralhem um carro com uma mãe e duas crianças dentro? Eu não tenho a menor idéia.

Até quando teremos duas polícias? Até quando o espírito marcial será a tônica da formação do policial, preparado para um confronto de vida ou morte, para ações de repressão e combate direto e não para a investigação e prevenção do crime?

Até quando veremos as vidas de inocentes interrompidas por balas perdidas em confrontos abertos nas principais vias do RJ e outras grandes capitais? Até quando assistiremos calados as chacinas que acontecem nas periferias de São Paulo, perpetuadas por agentes tão seguros de sua impunidade que foram capazes de assassinar a sangue frio um de seus próprios comandantes?

O brasileiro médio não se importa. Desde que estas mortes e tragédias ocorram longe de seus condomínios e escolas particulares não faz diferença. Até que isso aconteça com um de seus filhos. Aí sim. Tome ONG, passeata, campanha. Senão não tem importância.

É isso senhoras e senhores. "Qual a paz que eu não quero conservar pra tentar ser feliz?". A escolha é nossa.